Tribunal de uma Comarca próxima de si, 19 de Novembro de 2007.
Peça num acto (desesperado)
Juíza - O seu nome?
- Carlos Jesus...
Juíza - Com que então, excesso de velocidade... o senhor não sabe andar devagar?
- Mas...
Juíza - Cale-se! ainda por cima tem a mania que é um ás do volante, desses que encontramos todos os dias nas estradas a provocar a desgraça de muitas famílias... já se esqueceu que houve um cidadão que perdeu a vida neste acidente?
- A senhora doutora deve...
- Cale-se, que ninguém lhe pediu para falar! É sempre a mesma coisa, têm sempre uma desculpa pronta, mas na hora de pegar no volante esquecem-se das regras de conduta. Não se lembra que já anteriormente teve uma contra-ordenação grave?
- Grave?... descul...
- O senhor vai ficar calado e não volta a interromper, ouviuuuuu? se volta a interromper vai ver a pena agravada. É por estas e outras que todos os anos vemos milhares de mortos e feridos nas estradas do país... e já vi que essa primeira ocorrência deveria ter servido para o arguido tomar consciência da gravidade da sua conduta, uma vez que até passou um sinal vermelho...
- Sinal vermelh...
- O senhor além de péssimo condutor é mal educado! Vai condenado a nove meses de prisão com pena suspensa por um ano, oito meses de inibição de condução e setecentos euros de multas, custas do processo e outras despesas, dado o facto de ser reincidente. Tem alguma coisa a declarar?
- Meretíssima, como advogado do senhor Carlos Jesus, tenho a declarar que o meu constituinte nunca foi multado por atravessar sinais vermelhos, nem objecto de contravenções muito graves, pelo que sou levado a pensar que V. Exª. se equivocou e trocou os processos, uma vez que ficou provada na altura a culpa do condutor falecido no acidente.
- ...
- Face ao engano verificado...
- A setença foi proferida! Caso ache que a razão lhe assiste, faça o recurso da sentença.
(A boca de cena não foi fechada, como devia, no final do acto, mas ninguém deu por isso... o público saiu em silêncio, depois de ter sido feito um peditório a favor do Carlos Jesus, porque a juíza não aceitou o pagamento com cheques pré-datados).
Entretanto o morto foi exumado para ver se tinha no casaco a verba suficiente para pagar o processo, caso o Menino Jesus, perdão, o Carlos Jesus seja absolvido, o que não acreditamos, pois ao Kafka aconteceu o mesmo.
Há uns tempos, escrevi uma crónica em que concluía que das mulheres na GNR/Polícia, no futebol e na magistratura, só se aproveitavam os perfumes, mas ninguém ligou...





