terça-feira, 15 de maio de 2007

CRESCER, CRESCER, CRESCER...

Estou um pouquinho baralhado, nunca fui bom em economia e sempre tive a mania das dúvidas, não daquela metódica que se estuda na filosofia, mas daquela duvidazinha... talvez até por causa das "dúvidas" ou "por via das ditas" como dizia o meu avô...
E tudo porque estes governos, esta malta que andou por aí a dar "vivas à cristina" (ela até era boa, mas não precisava de tanto) e hoje se estabeleceu por nossa conta no poder que abominavam, entende que a sociedade actual é unicamente uma "unidade de produção global" que tem efectivamente de crescer, crescer, crescer... 1%?, 2%?, 5%??? seja o que fôr o crescimento, é fundamental para a felicidade do povo. Ora, eu... duvido. E coloco uma questão simples: quanto é necessário, por quanto tempo e de que maneira a felicidade se alcança em função do crescimento. Tão simples como isto.
Será um jovem "amish" (membro de uma comunidade fundamentalista hebraica) menos feliz, só porque anda de carroça, não tem televisão, telemóvel, computador, bebidas alcoólicas, bares, discotecas, queimas das fitas, máquinas digitais, etc, que poderia possuir, caso a sociedade em que vive tivesse o tal crescimento económico como objectivo quase exclusivo?
Supondo que existem 3 milhões de carros em Portugal e que a população adulta é de cerca de 8 milhões, facilmente chegaremos à conclusão que ainda há mercado para o crescimento de 5 milhões de automóveis. Será que este crescimento, que provavelmente bloquearia todas as estradas deste país, levaria os portugueses a outra e melhor qualidade de vida? ou esse crescimento tem limites e as classes C e D (classes económicamente desfavorecidas) serão obrigadas a andar na Rodoviária Nacional?
Enquanto tivermos esta classe dirigente a olhar a sociedade através de sucessivos crescimentos económicos, a afirmar que tudo está bem porque crescemos 0,01% e a dizer o contrário porque decrescemos 0,01%, não conseguiremos encontrar as coisas boas e, às vezes, baratas que muitas vezes estão à mão de semear, capazes de nos proporcionar uma troca de ideias entre amigos, uma caminhada, uma leitura, uma bricolage lá por casa, enfim, o preenchimento agradável de um tempo que, quer queiram quer não, é igual em todo o mundo e do mesmo tamanho, com crescimento ou sem ele.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

UMA MEMÓRIA DE LUZ...

Uma memória de luz ou pequena dissertação sobre a Primavera



Uma tarde estava eu na Ilha de Murano
A ver o esplendor do fogo das forjas
De onde saem peixes, relógios e cavalos
Quando me lembrei da força da terra
Não da terra propriamente dita, o planeta
Mas a terra de onde viemos e nos espera

Terá sido porque tinha estado em Burano
E no caminho vi o cemitério de Veneza
Cruzando a força das rendas das mulheres
E das redes dos pescadores dessa laguna
Com a fragilidade das flores mais secas
Sobre as pedras com as datas e os nomes

Lembrei-me mais da Primavera nesse lugar
Onde a terra era tão escassa e o mar imenso
No sono dos pequenos barcos no nevoeiro
No sossego interrompido pelos navios de luxo
Que descem o Adriático ao som da música
Mais fria, pobre e triste que se pode imaginar

Lembrei-me mais do cortejo do trem do cuco
Quando as coisas mais velhas e mais feias
Enchiam todos os carros de bois em desfile
Por entre os risos dos homens de barrete
E a desaprovação das mulheres velhas à porta
Porque havia ali coisas ainda boas de servir

Lembrei-me mais das fogueiras antigas
Nessas noites de cortejo no nosso Largo
Onde o Pelourinho é memória de justiça
E os rapazes mais velhos não deixavam
Que os pequenos saltassem a fogueira
Porque tudo tem o seu tempo na vida

Lembrei-me mais da nossa primeira festa
Que era sempre no Domingo de Pascoela
No Lugar da Granja Nova onde eu ia a pé
E o primeiro arroz de ervilhas da minha avó
Com o coelho do meu avô e dos meus tios
Era comido pelos músicos à beira do rio

Lembrei-me das nossas procissões à tarde
Quando eu segurava a naveta do incenso
E o turíbulo tinha brasas da nossa lareira
Que o meu tio ia buscar sempre a correr
Porque tinha o casaco de músico para vestir
Tocava trompete e fazia falta na filarmónica

Lembrei-me mais das festas de arraial
As gasosas a subirem do poço num cesto
A frescura nada tem a ver com frigorífico
Quando o vinho tinto amolecia as cavacas
E só assim o menino que era eu as comia
A olhar o coreto rodeado de sol e de pó

Lembrei-me mais de eu ser tão pequeno
E toda a gente na família me dizia
Para me levantar cedo e eu falhava
Não sejas lapão não deixes entrar o Maio
Repreendia a minha avó todos os anos
Sem nunca me explicar esta sua fala

Lembrei-me mais de ir ao Vale de Água
Para trazer os vários ramos da Primavera
Para nós, para a Tia Velha, para a Ti Zabel
Será por isso que ainda hoje no Chiado
Há quem venda estes ramos a alto preço
E um vai logo para o meu neto em Londres

Será isso hoje a Primavera possível
Um ramo num envelope almofadado
Ingénua maneira de prolongar o tempo
Que flutua numa memória qualificada
Mas não existe na verdade no campo
Onde se vive o esplendor dos pesticidas

Afinal nem tudo se perdeu, nem tudo caiu
Como eu não percebia as falas da minha avó
O meu neto vai demorar a perceber o ramo
Que ele possa chegar ao Outono como eu
Com o fogo da Primavera no seu olhar
E uma memória de luz onde tudo continua

José do Carmo Francisco

(O José do Carmo Francisco é um conterrâneo meu, amigo, cronista, jornalista, escritor, poeta - com um Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores, que homenageio no meu blog. A Granja Nova, a terra da minha mãe, continua a fazer parte do nosso imaginário comum. Obrigado José do Carmo!)

RECONSTRUÇÃO


Procuro recuperar a todo o custo,
por troca de mal passados tempos,
onde o que dizia eram apenas lamentos
de não ter, enfim, todos os meios,
a certeza de não ter receios
porque ser jovem é sentir que se é justo.

Pensando liso como uma bola, o universo,
sem altos nem baixos, nem tornados,
construí meu sonhado jogo de dados,
onde algumas peças sobraram por defeito,
originando um fino túnel no meu peito,
no puzzle que juntei e vi disperso.

Tento voltar a mim, queira ou não queira,
a estrada que percorri em passo certo
indicava apenas o deserto,
deixando nas várias margens do meu rio,
destroços de um tempo ainda frio
ao qual faltou a chama da fogueira.

Mas nada é tão frágil e emotivo
como o tempo que em cada dia se renova,
colocando aos sentimentos a dura prova
de saber testar a eterna confusão,
salpicada do que é bom, ou do que não,
mantendo esse momento sempre vivo.

Contrariando a norma, o que deve ser,
tentaremos a felicidade bem desperta,
longe ou perto, iremos na via certa
e juntos construiremos nosso bem,
com mil à nossa volta, ou sem ninguém,
sorriremos até no escuro, sem temer.

domingo, 13 de maio de 2007

O MAIS DIFÍCIL É O TÍTULO!


Não, não estou a referir-me ao título, áquele que muita gente está a seguir na tv, porto, sporting ou benfica, nesta tarde fresquinha de Domingo, mas apenas à dificuldade que encontrei para dar um título a esta crónica. Mais difícil ainda, centrar-me num emaranhado de temas que tenho focado durante estas horas de folga. Nem queiram saber os tópicos, ele era o 13 de maio, o futebol nos seus aspectos mais caricatos (e os jornalistas a ajudar à festa, com não-notícias), a senhora de 70 anos que vai ser julgada por se apoderar de um creme facial num hipermercado, no valor de 3,99€ (devia estar em promoção), a madeleine que estava no local errado, na hora errada (não me lembro de deixar os meus filhos sozinhos para ir fosse onde fosse...), enfim... temas interessantes não me faltavam, mas surgiu-me um email de última hora, enviado pelo meu amigo Miguel e tudo se alterou. A crónica tem outra titular, uma jovem de 20 anos, de seu nome Cláudia Miranda, que ainda não tem idade para ter um qualquer curso (talvez só nadadora-salvadora e acho que são só 4 semanas de curso), mas que conseguiu apresentar um currículum tal, que foi nomeada administradora do Centro Hospitalar de Bragança, com um vencimento de 3.000,00€ mensais.
Dizem as más línguas que à Cláudia (eu até já a estou a ver, loira, de olhos azuis, 1,75m de altura e 63 kgs de peso, 90-86-90 e charmosa, claro... ) também disponibilizaram automóvel, despesas de representação e telemóvel. O email ainda refere que a jovem namora o presidente da JS de Bragança, o que lhe augura uma vidinha de sucesso e bem estar, pelo menos de 4 em 4 anos, porque o colega da JSD também namora e está à espera que isto mude.
Não sei porquê recordei-me agora do Carlos Queirós se não tivesse tirado o curso, ou da Fátima Campos Ferreira sem estudos... mas este publicitários sempre foram uns exagerados! Perfeita, perfeita é a Cláudia Miranda sem estudos!
Não deixo de pensar que estava aqui agora uma miúda de 26 anos, ao meu lado, muito gira, a fazer as malas para ir para Lisboa, que acabou os seus estudos, entra de manhã cedo na empresa e não sabe quando sai ao fim do dia, tem de se orientar com 800,00€ de recibos verdes e, teimosa, não se quer inscrever na JS ou na JSD...
Afinal Cláudia Miranda, tu és a luz dos nossos jovens, qual Virgem Maria que nos abres os horizontes de esperança, tal qual também a nossa "Cristiana Ronalda" dos Centros Hospitalares, tal qualmente a imagem do sucesso por que anseiam as milhares de caixas dos hipermercados... com estudos.
E eu que podia ter começado a colar uns cartazes do "bloco central"a seguir ao 25 de Abril, tive a peregrina ideia de querer ser professor...
Na verdade, o "anónimo" do comentário parece estar dentro do assunto, a jovem tem mais de 20 anos (eu também desconfiava... 25, 30, 35? pouco importa) e com um quase doutoramento, o que lhe dá legitimidade para ser nomeada. E foi nomeada por isso? aí... o nosso amigo "anónimo" não esclarece. Namora o presidente da JS de Bragança? também não esclarece. Já trabalhou anteriormente e desenvolveu trabalho que suporte 3.000 mocas por mês, carro, telemóvel e outras mordomias? não esclarece.Infelizmente, temos no PS casos brilhantes de Antónios Seguros, Apolinários e outros tais que fora da JS e do PS nunca tinham feito nada e hoje são brilhantes profissionais da "coisa"... e os pseudo-jornalistas invejosos é que são os maus da fita.

sábado, 12 de maio de 2007

FLASH


Numa sexta-feira de sol e de memória,
na nostalgia de momentos de criança,
veio até mim aquela lembrança...
aquele jogo... os craques de costas voltadas,
esperando o toque delicado das palmadas,
sorrindo, olhos nos olhos, em caso de vitória.

Eram combates cheios de encanto
com os meninos, que hoje eram de rua,
mas que não conheciam a lua...
tinham de se deitar ainda cedo
por causa do velho que metia medo,
como dizia a mãe, no entretanto.

Depois foram procurar o mundo "novo",
lutando por um dia de sucesso,
esquecendo o bem imenso
do amor e da paixão plena,
fazendo de tudo isso uma faena,
matando, se necessário, o nosso jogo!

sexta-feira, 11 de maio de 2007

INCOMPATIBILIDADES...


Ao longo de 35 anos, que são os que levo de trabalho mais ou menos pedagógico com os jovens, tenho tido o cuidado de olhar toda essa dinâmica que envolve o processo ensino-aprendizagem e o desenvolvimento social, desportivo e cultural desta malta, a quem vamos transmitindo conhecimentos e referências que, penso, os ajudarão a construir a sua própria "casa".

Costumo dizer aos meus alunos que não espero deles, como professor de educação física, atletas de alta competição, porque isso é privilégio de uma minoria que na idade deles já tem vários anos de uma prática intensa, numa qualquer modalidade, mas espero sim que saiam da escola com uma gama de atitudes e comportamentos que os distinga dos marginais que encontramos nesses estádios e pavilhões insultando tudo e todos, organizando-se em gangs com objectivos distintos do normal adepto ou praticante desportivo.

Alguns tomam durante as aulas comportamentos nada adequados e, porque sabem que também fui jogador e treinador de futebol, ficam admirados quando lhes digo alto e bom som que "não quero atitudes do coice-bol" nas aulas de educação física.

- atitudes do "coice-bol", professor?

- sim, aquelas atitudes que vocês costumam ver dentro e fora dos estádios, quando ligam a TV para ver um jogo de futebol, com jogadores batoteiros a rebolar no chão sem que ninguém lhes toque e claques de matarruanos a gritar "filho da puta" quando o guarda-redes bate um pontapé de baliza.

O grave da questão é que a generalidade destes meninos das claques andaram na escola e muitos deles frequentam universidades, da mais "católica" à mais "independente". Alguns deles serão deputados, ministros e presidentes.

Afinal, eu hoje só queria tentar perceber a incompatibilidade entre a proximidade do portão de entrada da minha escola e os canteiros de árvores vazios que a ladeiam... é que quanto mais nos afastamos da entrada da escola, maiores e mais bonitos estão os plátanos que dão sombra ao espaço envolvente. Mas nos quatro canteiros da entrada, onde se juntam os futuros membros das claques do "coice-bol", a fumar e a dizer baboseiras, nem uma árvore de betão lá cresce.

Um dia vou fazer um mestrado sobre tudo isso...

quinta-feira, 10 de maio de 2007

DIMENSÃO

Brotando do nada que me serve,
cresço pr`a tamanhos desmedidos,
assumindo contornos coloridos
num arco-íris de sete tons,
onde junto à cor dos teus batons
a água que em meu coração ferve.

Depois volto à razoável medida
da paixão de vários sons,
guiando por caminhos muito bons,
construindo a pedra, pó e algum suor,
vestido por belas marés de amor
e achado no limiar de nova vida.

A meio desta trajectória
encontro quem sempre desejei
num acaso entre a terra e o astro rei,
onde a noite cai e o dia vem,
abraçarei teu corpo como ninguém
e seremos a essência desta história.

Achados no núcleo de um novo mundo,
próprio de quem quer navegar
nas vagas alterosas deste mar,
desfraldamos grandes e brancas velas,
onde pintaremos como em telas,
um amor, de azul profundo!

quarta-feira, 9 de maio de 2007

A ARTE DA FUGA


- Transportes, como foi?
- Sim, arranjámos duas carrinhas, para o dia a dia, o autocarro para os ir buscar, levar, e fazer aquelas visitas que sempre se fazem... também a camioneta de caixa aberta (o BTT no meio da floresta é sempre agradável e o transporte das bicicletas...)
- Ok. E comida?
- Sim, pequeno-almoço, almoço, lanche, jantar...
- Mas parece que houve um jantar que foi um fracasso, dizem. Mal organizado e não soubeste planear as coisas.
- Na verdade foi... mas sabes, eu realizei uma reunião para os pais e... só foram 6 ou 7.
- Claro, mal organizado, não soubeste planear as coisas...
- Oh pá, mas houve 4 pequenos almoços, 4 almoços, 4 lanches e 3 jantares...
- Pois, mas esse em que falhaste foi muito importante e os colegas estrangeiros ficaram muito desiludidos. Foi mal organizado e não soubeste planear as coisas...
- Mas olha que na actividade desportiva tudo decorreu muito bem, sem atrasos e com todas as modalidades. Eu nunca disse nada, para não ser antipático, mas lá, a competição programada de ténis de mesa não se realizou e apanhámos uma estopada numa manhã de sábado... mas quando me perguntaram eu até fui simpático e disse que não havia problema nenhum...
- Pois, mas houve uma outra falha imperdoável. Num tempo livre de duas horas, metade dos teus alunos deveriam ter acompanhado os colegas num passeio pela vila e não o fizeram...
- Pediram-me para ir estudar um pouco nessa tarde e... não fui capaz de dizer que não fossem... afinal eram só duas horas...
- Mas isso é grave, foram 16 jovens estrangeiros passear na vila acompanhados apenas por 7 dos teus alunos. Foi mal organizado e não soubeste planear as coisas.
- Pois... mas já reparaste que em 15 refeições só houve uma falha de organização, relativa ao apoio de pais/alunos?
- Mas isso é grave, deu uma má imagem da escola e até do País. Foi mal organizado e não soubeste planear as coisas.
- Sabes, estivemos 100 horas num máximo de 120 (5 dias), de sexta a terça, fim de semana incluído, a trabalhar que nem uns galegos, sem receber um euro a mais no vencimento, gastando largas dezenas de euros dos nossos bolsos e ainda corro o risco de perder amigos e alunos...
-É esse o fim de quem foi mal organizado e não soube planear as coisas. Temos de preparar outro intercâmbio...
- ...
- É pá, não te vás embora... eh, anda cá, não corras... que raio de bicho lhe terá mordido...


quinta-feira, 3 de maio de 2007

OCEANOS



Ondas revoltas de um mar imenso,
observo na praia rodeada de floresta...
mesmo olhando o nosso mundo por uma fresta
tenho imagem completa em pensamento.

Sinto em cada instante a solidão
olhando, sem ver, tudo o que me rodeia,
pisando incógnito a quente areia
onde corpos esculturais beijam o chão.

Contemplo tudo isso em tons azuis
e tento chegar mais perto do que é meu,
trazer perto de mim o mar, o céu,
as ondas alterosas onde fluis.

O mar, o céu, a terra em proporção
vão criando o amor que brota dia a dia,
despertando numa pedra a poesia,
onde esculpirei o amor e a paixão.

Musa que toco com prazer
e acaricio em cada gesto,
faz-me gritar ao mar, como protesto,
pelo tempo que passo sem te ver!

quarta-feira, 2 de maio de 2007

CONFESSO!

Confesso, sim! Eu leio a "Dica da Semana"!
Ela está para mim como um interlúdio literário dos livros que vou mantendo em cima da mesinha da sala. E que livros!!! são 616 intermináveis páginas do (perdoe-me a familiaridade) Lobo Antunes, são as 595 quase termináveis páginas do Pedro Canais, mais as 536 do Dan Brown e as terminadas 65 do Luis Veríssimo, 178 do Vasco Graça Moura, 239 sobre o "louco" Dalí, 246 do "meio maluco" Carvalho Rodrigues, 163 do "erótico" Ubaldo Ribeiro, 179 de Clarice Lispector (repararam que já não é "da", mas "de", não? leiam e um dia saberão porque Eduardo Prado Coelho disse que na literatura portuguesa só Clarice poderia voltar a dar-nos um Nobel da Literatura). Mas eu apenas queria confessar que... leio a "Dica da Semana", não quero saber nada das promoções da entremeada de porco, ou da couve lombarda a 0,50€ o quilo, não... eu leio a "Dica" às escondidas, espreito todas as portas e salas antes de lhe pegar, certifico-me que os meus filhos estão ausentes e aí... leio. Eu nem posso dizer que leio, eu devoro a "Dica", pronto! ou é a Maria Duval, ou aquela jovem que perde 45 quilos em 3 dias, ou é o Miguel de Sousa, que eu confundo vezes sem conta com o afamado "Manuel de Sousa". Esta semana é o Miguel de Sousa, com "20 anos de carreira" que me dá conta que de amores eu estou nas lonas (eu já tinha reparado...), o dinheiro tem só uma bolinha, o que quer dizer que estou quase teso, incapaz de gastar umas coroas para melhorar o parâmetro amoroso, com umas prendas persuasivas... uma desgraça, é o que é.
Se por outro lado me diz que o trabalho está bom, não fico sossegado... será que está bom, no sentido de ter muito trabalho? assim vai ser o bom e o bonito, como dizia o meu avô...
Na saúde é que não há dúvidas, estarei muito bem, diz o Miguel de Sousa. Não vou dizer que não, porque afinal só tenho um pouco de asma a chatear, umas dezenas de espirros por dia (a minha esposa já colocou a hipótese de ser alergia, mas eu nos últimos tempos tenho andado sempre com ela...) e as inoportunas dores de joelho. Acho que o homem acerta sempre comigo e eu agradeço. Afinal é informação gratuita trazida à caixa do correio e... muito fiável. Obrigadinho, Miguel de Sousa, mas não sei porquê, não tenho coragem de ler a "Dica da Semana" à frente dos meus filhos... acho que eles não podem saber que sem o teu horóscopo a minha vida era um fracasso.