quarta-feira, 14 de outubro de 2009

PARVOS, PORCOS E... POLÍTICOS!

Lembrei-me daquele sugestivo filme "feios, porcos e maus" sempre que dava uma pedalada, durante o percurso de btt que fiz com as minhas turmas nas aulas de hoje e até pode parecer que me estava a referir aos alunos, mas não, afinal eu tenho o prazer de ser professor numa escola excelente, onde tudo funciona razoavelmente, onde as aulas de substituição quase não existem, porque a assiduidade é superior a qualquer empresa publica, onde os alunos fazem educação física e tomam banho, onde o refeitório se enche de jovens, talvez porque a crise obrigou os pais a fazer contas de cabeça e 1,60€ na escola sempre é melhor que uma baguete na pizaria por 3,00€, porque as condições de estudo são muito boas para os que querem estudar e os funcionários são competentes.
O filme? pois troquei o título para um actual "parvos, porcos e... políticos", na medida em que nos 8 kms que fizemos entre Alcanena e Olhos de Água, encontrámos centenas de garrafas de água, latas de sumo e cerveja, caixotes, tampas, cartões, papel, jornais e outros objectos que tais, numa prova provada de que estamos num país superdesenvolvido em que o povo compra, consome, mastiga e deita fora e chama nomes aos parvos que reparam nestas cavalidades comportamentais.
E porque é que eu andei de bicicleta mais de mil quilómetros e não vi uma garrafa de água na berma da estrada? concerteza porque na Alemanha, Austria, Eslováquia e Hungria o povo não tem dinheiro para comprar garrafas de água ou leva-as para casa para encher de azeite e colocar na mesa à refeição, como fazia o meu avô há 50 anos atrás. Agora não se faz nada disso e o povo tem mais que fazer que guardar o lixo no carro e despejar no contentor quando chegar a casa, isso é que era bom, os gajos do lixo que apanhem que ganham para isso...
Pois é, parvos e porcos sim, somos todos nós, os que deitam o lixo na berma da estrada, os que cospem no chão, palitam os dentem com a boca aberta e dizem mal do governo, mas... políticos?sim, políticos mas os cá de baixo, das juntas de freguesia e das câmaras municipais... então eu que percorri essa europa em ciclovias, tenho de ir até aos Olhos de Água numa estrada municipal sem bermas e completamente esburacada, onde já se fala de construir ciclovias há mais de uma dezena de anos, pondo em risco o corpinho dos alunos?
Também por aqui houve necessidade de correr com essa malta que já se estava perpetuando na autarquia porque nem ciclovias, nem limpeza, nem gente desenvolvida e civilizada, daí o "parvos, porcos e... políticos". A minha esperança é que em Alcanena se continue a limpeza que começou no passado dia 11.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

AMIZADE

Ser amigo é mais profundo
e a amizade serve a toda a gente
mas no fundo, bem no fundo,
queremos tudo e nada de repente.

A amizade sim, é tão concreta,
conceito tão doce que amamos...
afinal serve de capa, é a pêta
das crianças, que sonhamos.

Acredito que outros valores,
mais altos ou mais baixos se levantam,
somam ódios e pavores
com que falsas amizades se encantam.

Quero quebrar isso, sim senhor,
quero amizade, quero ser eu,
descobrir e pintar telas de amor
aqui, ali, ao longe, até no céu!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

THE WINNER IS...

Como é de calcular, estive vinte dias sem escrever uma crónica, não que não me apetecesse, mas era altura de campanha, entrevistas na tv, arruadas, acasadas, pavilhoadas, canetas, bandeiras, barretes, perdão, bonés e não deram chapéus de chuva porque nunca mais chove... é verdade que parecendo interessante não deixa de ser uma real seca e qualquer dia aquela taxa que um governo mandou pagar através da factura da luz, por causa da seca continuará "ad eternum" chova ou faça sol e talvez em 2010 sofra um aumentozinho.
Claro que não ia fazer crónicas que, na pior das intenções poderia sugerir, indicar, insinuar ou até mesmo esmiuçar um voto no meu partido, no meu salvo seja, que não tenho nenhum, só pago quotas para o sindicato e para o clube, para este porque gosto e para aquele porque comecei a pagar há quase quarenta anos e depois uma pessoa habitua-se...
E não escrevi porque não me apeteceu mesmo, é escusado estar para aqui a arranjar desculpas, até tinha pensado dizer que tinha andado na campanha pelo país, de bandeirinha por festas, mercados, ruelas de bairros sociais e pavilhões desportivos, misturado com apoiantes que trazem sempre uma bucha na bagageira, mas não, não me apeteceu mesmo... e o que é que os meus amigos perderam com isso, ou pelo contrário, o que é que ganharam com isso? acho que eles não andam aqui a perder tempo lendo estas crónicas, para depois as classificarem como vitória ou derrota, perca ou ganho de tempo, ao contrário dos partidos, que na noite eleitoral apenas resumem os votos a uma vitória, seja ela extraordinária ou ordinária.
Olhei para os números e cheguei à conclusão que 2 (dois) em cada dez eleitores elegeram o novo governo, o que não sendo uma conclusão ordinária, é uma vitória extraordinária, como acentuou o vencedor, é mesmo extrordinário que apenas dois portugueses num grupo de dez façam uma maioria vencedora, vá lá saber-se como, mas isto da estatística é uma ciência de alto lá com o charuto.
Então no tal grupo de dez amigos, 4 deixaram-se ficar nas lonas e mandaram o escrutínio às ortigas, 2 votaram no governo, 1,5 foram pela oposição, 1 alinhou pela esquerda, 1 pela oposição de direita, 0,5 pela outra esquerda... e aqui damos conta da vitória extraordinária!
Tão poucos votaram no governo que as bandeirinhas acabaram por ser mais que os militantes na festa e uma grande manifestação de vitória teve de ser cancelada porque tirando a tv, os jornalistas e a mulher da limpeza, não estava lá ninguém no Largo do Rato... "olha lá, tu és rato..." ouvi logo de seguida num anúncio televisivo.
Ainda queria viver o suficiente para num grupo de 10 eleitores, estarem 9 na praia e um a festejar o governo do qual seria presidente, tesoureiro e quarto-secretário, como o Nacib da "gabriela, cravo e canela"... tenhamos calma que tudo será extraordinário, como a vitória deste governo.

domingo, 6 de setembro de 2009

EU E OS HETERÓNIMOS DE MIM...

Sem querer, sem saber, sem que fizesse o que quer que fosse para o saber, porque todos sabemos que alguém mandou escrever nas pedras "felizes os ignorantes, porque deles será o tal reino...", só não sei se serão vários os reinos, catalogados em função do nível de ignorância de cada um dos membros, mas convém que sejam vários os reinos para que existam várias cortes, variadíssimos estratos do mais elevado ao mais raso nível de ignorância.
Julgava-me eu sujeito apenas ao "juízo final", capaz de ser catalogado em função dos regulamentos, decretos e despachos ordinários e extraordinários emanados da corte suprema a que qualquer mortal não terá o mínimo acesso, nem a menor possibilidade de alterar os dados do computador total que paira acima das ultimas galácias, talvez até nalgum buraco negro, pois julgava-me eu assim mesmo, quando sou confrontado com análises mais terrenas e por isso muito mais próximas e sensíveis, capazes de nos fazer parar para pensar, o que nos tempos que correm não é fácil, porque tudo é muito rápido, tudo nos faz andar atrasados porque as solicitações são muitas e a nossa capacidade de análise, ou a tal ignorância de que falei acima não nos deixam pensar um pouco mais profundamente sobre o que somos, o que queremos e para onde vamos...
Tudo isto a propósito de ao longo dos anos ter sido confrontado com elogios e críticas, o que na verdade me leva a pensar que pior teria sido passar pela vida sem que ninguém se apercebesse que eu tinha andado por aqui, mas há críticas e críticas, aquelas que na profissão, na família e na sociedade nos fazem crescer e aquelas "qualidades" que, se calhar transportamos connosco desde que nos conhecemos, fazem parte do nosso código genético e nem nos apercebemos que às vezes incomodam quem não tem mais nada para analisar e ocupa o seu precioso tempo olhando os outros...
Sempre pensei que o homem nasceu livre, despojado e titular de livre-arbítrio, capaz de crescer e transmitir a si mesmo e aos outros os traços gerais do meio em que se insere, condições básicas que procuro manter num nível elevado, mas como humano que sou, também reconheço que tenho limites e não aceito de ânimo leve algumas críticas que, se algumas vezes "deleto" e passo à frente, noutras ficam aqui dentro e fazem mossa.
"ah não sabia? em casa pode ser uma maravilha, mas aqui é uma fera... quando está mal disposto ninguém o atura... mas o melhor é nem responder que passados uns minutos volta a ser simpático."
" sinceramente, com aquele feitio... como é que vc o aguenta?"
" humm olhe que ele é muito simpático, deve ser muito interessante viver com ele... às vezes são muito simpáticos e depois em casa são do piorio..."
Quando eu era pequeno, lembro-me do meu avô Manuel estar toda a manhã a ler o Diário de Notícias junto da janela da sala, virada para o sol e a rua, com a maior calma do mundo e sem uma única palavra, um comentário, uma observação... eu chegava em bicos de pés, sem um único barulho perturbador, beijava o "velhote" e saía de mansinho porque enquanto ali estivesse a leitura não fluía conforme a norma.
Hoje não posso, o espaço é de todos, os muitos canais de tv saltam uns por cima dos outros a cada minuto e nem pensar em dizer que aquela programa estava a ser interessan... que já lá vão mais 17 canais salteados, o jornal vai-se lendo aos bochechos entermeados por conversas sem jeito, telefonemas e mensagens e o espaço de cada um é cada vez mais o espaço de todos.
Criou-se a ideia "pós-moderna" do homem sem segredos, a saída semanal do namoro do "jet-set" e do divórcio do "jet-dezassete", acha-se impensável que um político não apresente à sociedade a família até à quinta geração e é sinal dos tempos modernos que as relações não têm segredos e que todos devem saber da vida de todos, para além de todos se sentirem no direito de analisar e julgar o amigo, namorado, marido, família, com um remate final no vestido da Michelle Obama que de tanto sair na "nova gente" também já faz parte do círculo (circo) crítico.
E a vida de cada um? os estímulos, os desejos, a imaginação, os objectivos que quase sempre acabam por não se alcançar, os sonhos que no dia seguinte já não se lembram, os segredos que não se contam, as fragilidades que se escondem, os pontos fortes que são apenas de cada um de nós, os gostos que são tão diferentes, haverá lugar para eles fora do conhecimento dos agentes da "pidesca coscuvilhice" que nos cerca?
Por algum motivo Drumond de Andrade nunca autorizou que os seus poemas do "amor natural" fossem à estampa enquanto foi vivo, ou que muitos outros tivessem deixado na gaveta os seus segredos, ou os tivessem transportado consigo...
Na década de setenta lembro de um título de um filme "Vive e Deixa Viver", a que a malta nova costumava acrescentar "... e não chateies!", para além de um velho dito que caiu em desuso "quem está, está, quem vai, vai!", o que de certa forma deveria continuar actual, acompanhados do "amigo não empata amigo!", mas o século XXI está a tornar-se o "tempo do mexerico", a era do "big brother", do "voyerismo", da prática do "sabias que...?" e quando isso começa a fazer parte da mobília as coisas começam a ficar sem luz ao fundo do túnel, como diria o "camarada Mário".

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

TROCAS E BALDROCAS...

Agora que se aproximam as eleições, sejam elas quais forem, autárquicas, legislativas ou regionais se dermos tempo a certos figurões, dei-me conta de novos-velhos episódios de "transferências" partidárias ou tão somente "transferências" opinatórias... não sei porquê esta do opinatórias, mas talvez tenha a ver com o Pina Moura, é isso, o Pina parece que deu um pinote igual aqueles que o Nani executa quando marca golos pelo Manchester United... ah até quem já proponha o Nani na Assembleia da República porque flic-flacks e cambalhotas é com ele.
Uma vez elegemos o Simões para a Assembleia, logo a seguir ao 25 de Abril, o Simões do Benfica, campeão europeu, se calhar a pensar nas fintas que o homem fazia quando era extremo-esquerdo, mas parece que o colocaram na extrema-direita e o homem foi-se embora na primeira oportunidade que apanhou... tivesse ele a habilidade do Pina Moura para entrar pela esquerda e só parar na direita (está quase, está quase) e hoje estaria a colocar protector solar no Algarve com uma reformazinha adequada.
Mas o título é mesmo "trocas e baldrocas", capaz até de ser produzido pela Endemol num qualquer concurso televisivo de um dos vários e igualzinhos canais de tv que temos, tão antidepressivos que me fazem dormir em cinco minutos, cobrindo-me de ridículo quando oiço alguém ao meu lado a perguntar "viste? viste?" - é claro que vi, então estou aqui na frente da televisão para quê?
Mas era um bom projecto, todos os dias eram seleccionados vários telespectadores que apresentariam um político que dissesse o contrário do que já alguma vez tivesse concluído, sei lá...
- dou o Pina Moura à troca, trocou o PCP pelo PS só para não ter de descontar no vencimento de deputado as alcavalas que ficavam no partido.
- eu troco o Isaltino do PSD pelo Agrupamento Eleitoral de Oeiras "vamos Isaltinar!", só para ridicularizar o Marques Mendes.
- volto a trocar o Pina Moura, que trocou o PS pelo programa de governo do PSD, dizendo que este é que é bom para o nomear na administração de uma empresa pública...
- troco por qualquer coisa que valha a pena, sei lá, a Bárbara Guimarães pela Zita Seabra que veio do Comité Central do PCP para deputada do PSD, na maior cambalhota do século XX.
- Já não tenho muitos trunfos para trocar, mas avanço com o Freitas do Amaral que depois de ser chefe do CDS, acabou ministro do PS e não se sabe ainda onde vai acabar...
- Humm acho que vou ganhar o concurso, calhou-me a biscar e saquei o jocker... então não é que mandei para a troca o Durão Barroso que trocou o MRPP pelo PSD e já vai na presidência da Comissão Europeia?
- Está bem, estás com bom jogo, mas ainda tenho aqui o Mário Lino "Jamais" que além de trocar o PCP pelo PS ainda trocou a Ota por Alcochete e já prometeu trocar o TGV pelo electrico da Praia das Maçãs, se o chatearem muito.
Bem, o melhor é ficarmos por aqui, senão ainda faço uma crónica maior que as Páginas Amarelas e a Teresa Guilherme não ganha dinheiro suficiente para produzir e manter um concurso destes nos 12 episódios que habitualmente se contratam... já lhe disseram até que um concurso destes dura em "prime-time" mais que qualquer julgamento da Casa Pia e a malta já não tem pachorra.

domingo, 30 de agosto de 2009

MEDALHAS DE OURO...

Nestas coisas das medalhas de ouro, há-as de todos os feitios, modelos e paladares, desde os Jogos Olímpicos, Campeonatos do Mundo e afins, assim como do Estado, Governo, Câmaras e Juntas, para além de clubes, colectividades e associações, das mais exóticas às mais formais, até porque se há gente disposta a galardoar, parece que há muitos mais a querer receber, até porque medalhas, comendas e prémios dão sempre jeito no currículo, se mais não fôr para ajudar a compôr o dossier que na velhice renderá um qualquer subsídio como aqueles "da liberdade" que até o Palma Inácio recebia por ter gamado uma fortuna na Figueira da Foz.
Isto tudo a propósito de uma tal "medalha de ouro" da cidade de Santarém, proposta, aprovada e aplicada pelo bem conhecido presidente de câmara, escritor, telecomentarista e ex-inspector da judiciária Moita Flores, na pessoa do primeiro-ministro, secretário-geral, ex-ministro e engenheiro civil José Sócrates que não tendo mais nada que fazer, foi até Santarém com a comitiva receber tão importante prebenda, aproveitando para elogiar o independente eleito pelo PSD, agora apoiante do PS nas legislativas e candidato do PSD nas autárquicas, onde votará em consciência, porque o homem pode até parecer parvo, mas não é burro.
Mas eu só queria saber onde, como e quando se podem propôr medalhas de "ouro" e onde, como e quando nos devemos sentir no direito de as exigir... acho que se até para fumar já há lei que estabelece onde se pode fumar e em que condições, porque não uma lei que nos informe quando é que uma medalha de "ouro" pode ser atribuída, porque depois ainda temos as de "prata" e as de bronze. O facto de não haver um conjunto de mandamentos que organize e estruture a entrega dessas medalhinhas leva até que elas só se entreguem quando o tal presidente, seja ele qual for, se lembre e proponha, vote a favor e entregue a "coisa", porque haverá sempre um fotógrafo e um boletim informativo a perpetuar a cerimónia.
Nestas coisas de medalhas de "ouro, ou "medalhas de ouro", como queiram, encontrei algumas curiosidades, como por exemplo, a câmara municipal do concelho onde resido ter atribuído a "medalha de ouro" a um clube desportivo em 1970 e ter voltado a atribuir nova "medalha de ouro" ao mesmo clube em 1995, tudo levando a pensar que um ano destes volte a fazer o mesmo, o que pressupõe que não há um livro de registos adequado que possibilite saber quem recebeu e o que recebeu... neste caso, até com o facto extraordinário de as medalhas não serem de ouro. Então faz-se figura com as tais "medalhas de ouro" e depois aquilo não vale a ponta de um corno?
Também um dia me foi atribuída a responsabilidade de gerir um clube desportivo, onde me mantive três anos, tendo verificado que também aí as pessoas com 50 anos de sócio (cinquenta anos!!!) eram anualmente contempladas com um emblema de latão dourado e os com 25 anos de sócio recebiam um emblema de latão prateado, tudo isto dentro daquela nacional parolice que satisfazia toda a gente por meia dúzia de patacos. Claro que os emblemas de ouro e prata verdadeiros começaram a fazer parte da vida do clube, mantendo-se durante esses três anos e espero que o hábito se mantenha por muitos e bons anos, até para dignificar quem os entrega e quem os recebe.
Mas voltando ainda ao presidente da câmara Moita Flores, não somos contra a entrega de medalhas de ouro, porque haverá sempre alguém que por um desempenho acima da média e a favor da comunidade, mereça uma especial referência, mas não haverá no meio dos comentários televisivos, dos livros escritos como quem come tremoços à saída da missa ou das reuniões de câmara e das cerimónias das medalhas outros interesses que nós não vislumbramos?
Bem, ficamos à espera que esta burla das medalhas douradas acabe... ou será que quem as recebe não tem qualidade suficiente para merecer medalhas das verdadeiras?

terça-feira, 25 de agosto de 2009

FÉRIAS? AHHH FÉRIAS...

Não estou na minha melhor fase, ou alguém esperava que no final das férias de Verão alguém no seu perfeito juízo estivesse bem? acho que as férias deviam acabar, quer dizer, o conceito de férias deveria continuar, as férias na realidade deveriam existir, mas de uma forma diferente... esta treta das férias num determinado período do ano para quase toda a gente está a tornar-se insuportável... as férias onde quase toda a gente vai para o mesmo sítio ou para vários sítios fazer o mesmo e a certa altura já vai à praia, não como algo que lhe dá prazer, mas como um castigo que tem de cumprir diariamente porque pagou o hotel ou o apartamento não foi para ficar a dormir na cama até lhe apetecer, o que seria impossível até porque as crianças já têm os baldes na mão e a toalha ao pescoço.
Não sou contra, cada um deve preencher estes dias da forma que lhe der mais jeito, ou da forma que a mulher e os filhos deixem, mas não era isso o foco da crónica, as férias só deviam existir como objectivo, nós sabemos que temos umas férias em cada ano, mas como li num qualquer jornal, não é o objectivo que conta, mas todo o percurso até lá chegar... era isso que eu queria dizer sim, o que me excita é imaginar as férias, sonhar com as possibilidades de férias, ver aqueles documentários do "travel tv", fechar os olhos e ir até lá seja qual for o "lá"...
Depois são aquelas propostas malucas de ir de bicicleta...
- És parvo ou quê, pá? não vês que já não tens idade para isso?
É verdade, não me posso meter nisso que já não tenho idade...
- Já marcaste as férias para nós, ou já não te lembras?
Pois marquei e como qualquer mortal no seu perfeito juízo, as férias são um mês, mas oito dias de praia chegam e sobram, o dinheiro está cada vez mais caro e qualquer hipótese de ir a outro sítio fica logo manchada ou pela idade, ou pelo juízo que já é pouco ou...
- Já viste o dinheiro que isso custa? saiu-te algum no "euromilhões" e não avisaste?
Mas tudo continua a girar em torno da imaginação de cada um e em relação a umas férias que chegarão dentro de 3 ou 4 meses e aí sim, todas aquelas hipóteses estrambólicas, toda aquela adrenalina que elas provocam isso sim, isso é que são as verdadeiras férias, porque no fim chegamos à conclusão de que...
- Então e as férias?
- ahhh passaram-se...
Ao contrário de tudo isto, guardei uns dias para fazer umas pinturas na casa, o muro exterior, as paredes do telheiro, os pilares... aquilo já estava a precisar de uma camada de tinta branca porque a humidade, a chuva e tudo o resto tinham deixado as paredes com umas zonas escuras, além de que há sempre um período de validade para as pinturas e o meu já tinha sido ultrapassado há meia dúzia de anos. Claro que estas "bricolages" deveriam ter sido efectuadas no início desse tempo de repouso, mas não sei porquê guardam-se sempre para os últimos dias e nada de mais errado, um indivíduo sente-se até culpado daqueles bons momentos em que bebíamos uma cerveja gelada na esplanada, achamos que as paredes até nem precisavam de pintura nenhuma e acabamos as tais férias a pensar que temos dias a mais, que depois nos fazem preencher com trabalhos forçados...
Estou até convencido que a breve prazo vou ter de pedir a redução do tempo de férias... se estas continuam assim ainda meto baixa quando voltar ao emprego.

domingo, 2 de agosto de 2009

DIÁRIO DA MALUQUICE!

DIA 1 - Comecei ontem, 1 de Agosto, com o meu amigo Carlos Marques, a "odisseia do Danúbio" que em cima das bicicletas e durante 15 dias nos levará até Budapeste na Hungria, fruto de um convite de um outro "maluco" das duas rodas, o catalão Josep, imediatamente aceite há uns meses atrás e que só não foi subscrito pelo Miguel, Pedro e João, nossos companheiros de trabalho porque não tiveram juízo, casaram-se, tiveram filhos e agora sofrem as consequências das impensadas atitudes tomadas há uns anos atrás, justificando a impossíbilidade de um qualquer passeio, umas vezes com a dor de cabeça das mulheres, outras vezes com a gripe dos filhos, outras ainda com a permanente falta de dinheiro, coisa que só acontece aos pobres.
Recepção triunfal no aeroporto de Barcelona, depois de uma viagem em que as hospedeiras mostraram e demonstraram porque é que eu gosto tanto de andar de avião, indicando-me as portas de saída, os coletes salva vidas que estão sempre debaixo do banco, mas eu nunca me dei ao trabalho de confirmar e encaram as instruções dadas aos passageiros distraídos como quem bebe um café espanhol.
Chegada a Palamós, às tantas da manhã e com uma vontade enorme de parar na esplanada e beber umas canhas geladas, tal a temperatura tropical que viemos encontrar.

Dia 2 - Abençoado Domingo!

Com uma alvorada marcada para as 11 da matina e depois de um banho retemperador e um desayuno farto e sucolento, fomos na direcção do restaurante onde se comem as melhores paellas da Catalunha, antecedidas de um cocktail de gambas que me deixaram com a impressão de que a crise ainda vem em Marrocos. Num final vigoroso e arrebatador, confrontá-mo-nos com uma "taça catalunha" que chegava para toda a família... infelizmente não consegui dar conta do recado e metade da taça foi devolvida à procedência com a total ângustia e impotência que todos podem imaginar...
Depois de um curto intervalo foi possível iniciar um pequeno treino de adaptação às bicicletas e nem foi difícil perceber que uma leve azia no estômago só podia ser ultrapassada com uns sais de frutas "Eno", uma vez que se avizinhava outra refeição em casa de um amigo e não havia tempo a perder. Lá fomos atacar uma cataplana de marisco que resultou muito bem, a ponto de alguém propor o adiamento da "rota do danúbio" por uns 15 dias de férias nas praias da Catalunha, o que foi pronta e hesitantemente rejeitado, mais por vergonha que por convicção.
E a saga continua...

Dia 3 - A partida

O início do dia foi marcado por uma preparação rápida da carrinha de apoio, com todos os materiais necessários e as indispensáveis bicicletas que, experimentadas no dia anterior, demonstraram uma qualidade e fiabilidade acima da média. Daí, ainda antes da oito da matina já rolavamos pela auto-estrada em direcção à fronteira com a França, papando quilómetros e metendo gasóleo que, fomos confirmando tão caro quanto o nosso, na França como depois na Alemanha, na Eslováquia e na Hungria.

Depois de uma cansativa viagem até Donauschingen, onde o Danúbio parece nascer e digo parece porque com tantas descobertas por aí, ainda não se provou científicamente o definitivo lugar do "olho" do Danúbio... mas a malta do sítio diz que sim senhor, que é ali mesmo que o rio nasce e quem somos nós para não acreditar?

Cansativa a viagem? nem dei para saber, que assim que montei a tenda... adormeci.

Dia 4 - Afinal as bicicletas eram necessárias...

Pois a surpresa foi geral naquela quase madrugada em Donauschingen... as bicicletas foram entregues a 4 voluntários para o início de uma aventura que começava aí, mas ninguém sabia como ia acabar, se é que iria acabar em Budapeste.

Os cálculos dos quilómetros foram feitos através das normais estradas dos mapas de cada um dos países e afinal esta "donauradweg" a tal ciclovia do Danúbio tinha curvas atrás de curvas, entrava e saía das aldeias, ficava perto e afastava-se do rio quando lhe apetecia e até me pareceu que alguns "presidentes da junta" viravam as placas da ciclovia para nos obrigarem a passar por todas as ruas da aldeia.
Ao princípio até achava piada, mas depois começamos a desconfiar... eles queriam era que bebêssemos umas canecas de "wisebier" nas tasquinhas lá das aldeias, o que era para nós um sacrifício, como devem calcular.
O que acontece é que de Donauschingen a Munderkingen demoramos "apenas" 9 horas e 30 minutos, com paragens para "abastecimento" nos mais diversos locais e para um percurso que no mapa tinha marcados 120 kms, pedalamos 156,15 kms com um consumo de 4.228 calorias, atingimos a velocidade máxima de 55,5 kms/h e uma média de 20,1 kms/h.
Agora que estou a ver estes consumos de calorias aqui nos apontamentos é que percebo porque é que me dizem que estou mais magro...
E a saga continua...

Dia 5 - De Munderkingen a Donau Worth

E o dia nasceu tal qual um dia de sol em Albufeira, eu preocupado com o frio da Alemanha que alguns "amigos da onça" costumam chamar a atenção e nem frio nem chuva... apenas me lembrava do impermeável, do polar para as noites frias destas paragens ou do monte de roupa que estavam dentro da mochila e que até agora só estorvavam. Ou era do tempo ou da tenda, o que acontece é que dormia todo nú e mesmo assim transpirava que nem um desalmado...
Então para hoje o mapa marcava cerca de 130 kms, o que pela experiência acumulada nos fez pensar em muito mais, o que se comprovou no cronómetro electrónico, no final de 8 horas e 10 minutos de rabinho assado no selim da bicicleta e 168,8 kms de percurso real. Não levasse eu o meu "apyrol" para massajar as nadégas e teria deitado a toalha ao chão, não porque os amigos estivessem melhores que eu, mas porque já sentia necessidade de um andamento à cowboy, não sei se estão a ver.
A vergonha de desistir ao segundo dia seria a nódoa negra de uma vida de conquistas... e como ia enfrentar o tribunal do gabinete de educação física lá da escola, onde estariam os inquisidores-mor, prontos a acabar comigo em três tempos? não, isso nunca, nem que chegasse a rastejar a Budapeste.
Escusado será dizer que à noite ninguém quis saber de Donau Worth e às 22 horas foi o recolher obrigatório, não por minha vontade, mas ninguém me quis acompanhar para um café numa das muitas esplanadas da cidade.

Dia 6 - Entre Donau Worth e Resenburg

O tempo continuava fantástico, a ciclovia do danúbio estava totalmente sinalizada e o pavimento é plano e liso, convidando a boas médias, então se o vento estava pelas costas ninguém nos segurava, ainda por cima se não era trigo, era milho bem alto a resguardar-nos de algum vento contrário.
Nesta etapa batemos o record de velocidade máxima em todo o percurso, com 50,8 kms/h, num total de 156,92 kms de percurso.
Como é de calcular, o parque de campismo e a tenda foram a tábua de salvação e nem um convite para visitar a cidade fazia sentido nessa altura, pelo que me abstive de o fazer, salvaguardando uma possível tareia como reacção dos meus companheiros de tortura. É que 481 kms em três dias de prova é razão mais que suficiente para uma reacção negativa a qualquer proposta positiva... e amanhã, como vai ser?

Dia 7 - De Resenburg a Passau, mais fácil que saltar à corda!

Apenas 115 kms, sol radioso, esplanadas junto ao Danúbio, vento inexistente, ciclovia melhor que algumas auto-estradas para automóveis, uns companheiros de viagem sempre bem dispostos... que mais se pode pedir ao pedalar na Alemanha profunda que nem a maioria dos alemães conhece? boas e frescas florestas para pedalar, de tal maneira que a média desta etapa foi de 22,5 kms/h mesmo com algumas paragens para repor o stock de líquidos, não que fossem muitas as paragens, porque de cada vez era uma "wisebier" de meio litro, mas sempre se faziam quatro paragens por dia, sim...
Se não estou em erro foi neste dia que perdemos a ciclovia, um falahnço que acontece a qualquer um e que nos fez pedalar por fazendas, montes e vales, de tal maneira que a melhor solução foi pegar nas bicicletas à mão, galgar com elas os rails da estrada para automóveis e fazer umas dezenas de quilómetros até voltarmos a encontrar o percurso das bicicletas. Este percalço também teve o seu ponto alto, quando quase fomos atropelados por uma gazela linda saída de um milharal e que se assustou... era linda, foi a primeira que vi ao natural e ao vivo e a imagem ficou na memória porque não tivemos tempo de sacar da máquina fotográfica.
Se não estou em erro, foi neste percurso que às 11 da manhã, por sugestão do meu amigo Carlos Marques, entramos num pátio de uma casa de campo alemã, apenas porque tinha uma bandeira de uma marca de cervejas na parede... não nos enganamos e encontramos Herr António a varrer a relva da esplanada e colocando as mesas e cadeiras, fumando um cigarro sem filtro, daqueles que não fazem mal a ninguém porque se fizessem o homem já tinha morrido. Também portador da única língua que nenhum de nós entende a não ser ein, zwein, trei bier e dank no final, bebemos mais umas canecas, tiramos umas fotos, dissemos onde ficava portugal no mapa e continuamos a pedalar, que por aquele andamento ainda hoje não tinhamos chegado a Budapeste.

Dia 8 - De Passau a Linz, a transição germano-austríaca por barco...

Outro dia magnífico, onde eu, o Carlos e o Tiago encontramos um anfitrião alemão completamente "português", na tal passagem de fronteira feita por barco, o homem só falava alemão mas por gestos e palavras conseguiu dizer-nos o melhor local de travessia (havia três diferentes), o melhor parque das redondezas, onde a água era muito boa para tomarmos banho, talvez ele entendesse que estavamos a precisar de um bom banho, tirou-nos fotos e fez o favor de se deixar fotografar connosco... de início pensamos que era um de muitos cicloturistas, mas acabamos por concluir que vivia ali mesmo e que a sua vida se resumia a ser um simpático public-relations de fronteira. Obrigado Fritz!
A chegada a Linz foi feita em apoteose, com um belíssimo sprint final ganho por mim, depois de nos últimos quilómetros os meus colegas de infortúnio tudo terem feito para me fazer descolar, o que como calculam me deixaria num plano de subalternidade que eu não aceitei, fui-me a eles como uma sombra e para finalizar em beleza fiz um sprint final que os deixou de rastos. Foi remédio santo, quando eu ia para a frente puxar, sentia perfeitamente que eles tremiam de medo... mas nunca tive vontade de os abandonar, isso não, estavamos ali para resolver as coisas solidariamente e além disso quem levava o dinheiro para os mantimentos eram eles.
No percurso passamos por Lindau, uma cidade alemã simpática onde se iniciam os cruzeiros que levam os turistas até Viena de Austria... enquanto passamos vimos vários barcos a receber turistas e concluímos que um passeio no Danúbio também deve ser muito agradável.

Dia 9 - De Linz a Melk, com passagem por Mauthausen...

Foi um dia de sentimentos, aquele que nos levou à cidade austríaca de Mauthausen, onde de 1941 a 1945 funcionou, num planalto a quatro quilómetros da cidade, o campo de concentração nazi por onde passaram em quatro anos cerca de 200.000 pessoas e onde a maioria acabaria por ser executada de várias e inimagináveis formas. O silêncio do lugar e das pessoas que connosco se cruzaram diz bem da forma como tudo aquilo nos pareceu real, o campo está igual às fotos da época, os lugares de tortura são ali a prova de que tudo aconteceu e para que o ciclo se feche, o ciclo da vergonha que foi tudo aquilo, não se vê na cidade de Mathausen uma única placa a indicar o campo de concentração, que só achamos porque o GPS da carrinha que nos acompanhou funcionou na perfeição.
O dia, que seria de descanso, foi preenchido por um reduzido percurso de 93 kms até Melk, uma outra bonita cidade, não porque não desejassemos descansar, mas talvez dentro de cada um de nós houvesse uma grande vontade de nos afastarmos desse campo de má memória, onde o silêncio pesa como chumbo em cada visitante.
Por isso fomos descansar em Melk, num parque junto ao rio Danúbio, muita floresta, uma catedral esmagadora pela sua grandeza e esplanadas calmas, lindas e com velas acesas nas mesas, o que dá um ambiente deslumbrante a quem chega, apenas com o senão de tanto na Alemanha como na Austria, países desenvolvidos, não termos apanhado rede livre da net, ao contrário de Portugal, Espanha, Eslováquia e Turquia... e todos sabem como eu sou um fã da internet.

Dia 10 - De Melk à deslumbrante Viena...

Se não estou errado, esta etapa foi protagonizada apenas pelo camisola amarela (eu, claro) e pelo camisola azul da montanha Carlinhos Marques, uma autêntica desilusão para quem já tinha andado pelos triatlos, btt`s da costa alentejana e algarves, treinos bi-diários de bicicleta.
Se eu tinha até alguma razão para me queixar da dureza dos percursos, até porque não estaria tão bem preparado, acho que a média imposta de 22,7 kms/h nesta pistas austríacas ficou muito aquém do possível, mas o Carlos nunca me deixou tomar o comando... ele lá sabe porquê.
Então foi ver os passarinhos, os cavalos, a malta maluca do btt que, do avô ao neto entupiam as ciclovias até Viena, o esquiador a fazer aquilo em patins, um jeitoso a pedalar em monociclo, outros em bicicletas onde os pedais vão à frente e eles deitados, como se aquilo desse algum jeito, para além de dar nas vistas, outros com atrelado na bicicleta e os filhos, coitados, a dormir lá atrás... mas de corrida mesmo, daquelas em que chegamos ao fim a transpirar... nada. Pode ser que amanhã seja outro dia.

Dia 11 - De Viena de Áustria à hungara Komaron...

Temos de referir um facto aborrecido, que foi a neutralização do percurso entre Viena e Bratislava, cerca de 60 kms, devido ao mau tempo, uma trovoada que se abateu na noite anterior e que nos deixou com equipamento e roupa completamente encharcados, o que associado a uma chuva miuda e persistente pela manhã, nos quebrou a vontade de fazer esses sessenta quilómetros. Mas o tempo melhorou e o vício da bicicleta apoderou-se de todos nós, com excepção do Tiago, do Marti e do Josep que apresentaram justificações para não sair da carrinha, o que obrigou a que o pelotão fosse constituído exclusivamente por portugueses, eu e o Carlos Marques, levando a uma velocidade média de 24,4 kms/h.
Aqui, saímos da Austria para fazer quase todo o percurso na Eslováquia e por milagre, quando esperavamos o pior quanto a ciclovia, deparamo-nos com uma autêntica auto-estrada para bicicletas só para nós, alí mesmo ao lado do Danúbio, numa baía a perder de vista e com o vento pelas costas, conversando um com o outro e com as bicicletas a ultrapassar sistematicamente os 40 kms/h... onde apenas vimos um ciclista com fato de quem tinha acabado de sair de uma qualquer fábrica das redondezas, boné na cabeça e roupa anos 60... concluímos que não era ciclo-turista, infelizmente para ele, mas a vida é assim, como se costuma justificar a má sorte alheia.
Quase no final do dia e quando nos preparavamos para deixar a Eslováquia e galgar a ponte que servia de fronteira entre este país e a Hungria, acabou-se a ciclovia e fomos atirados às feras, numa estrada nacional cheia de camiões, parecida com 90% das estradas nacionais portuguesas onde arriscamos a pele a andar de bicicleta. Não bastando isso apanhamos uma carga de água até Komaron, na Hungria, mas acho que nos fez bem... nada melhor que uma águinha na cara quando nos sentimos cansados.
Ah, já esquecia, não fosse um amigo eslovaco, de boina basca na cabeça, saído de uma fábrica em cima de uma velhinha bicicleta, a indicar-nos o caminho do Danúbio naquele fluente eslovaco que entendemos na perfeição e talvez ainda hoje lá andássemos (pelo menos eram mais uns dias sem ouvir falar nos infectados pela gripe A).
Não sei se por simpatia ou se para se ver livre de nós, o amigo eslovaco ficou deslumbrado quando lhe dissemos que íamos de Portugal até Budapeste e até tirou a boina ao despedir-se... um amigão que concerteza foi para casa a pensar que estes portugas não têm juízo nenhum desde que o Camões foi tratar de acabar os Lusíadas lá para o extremo oriente.
Para que tudo acabasse em beleza, fomos encontrar o hotel-camping "Juno", uma variante de campismo que só encontrei na Hungria, mas eu passo a explicar, qualquer pessoa pode hospedar-se com cama de hotel ou com tenda de campismo, a diferença está no preço, claro, mas pode usufruir de todas as excelentes condições do hotel, desde o restaurante, à piscina ou mesmo à password necessária para navegar na net... uma maravilha após 9 dias sem navegação à vista.
E para a estatística, neste dia foram só 122kms, à média horária de 24,4Kms/h.

Dia 12 - O final de Komaron a Budapeste...

Apenas 110,8 kms nos separavam de Budapeste, a mítica cidade hungara de que qualquer turista encartado fala como uma referência e um local a visitar pelo menos uma vez na vida.
Tempo bom, deixamos a Hungria, para atravessar a ponte e regressar à Eslováquia, apenas porque queríamos ir pela direita do rio até Budapeste, uma vez que as indicações dos mapas nos faziam prever um percurso melhor que o da margem esquerda e também para olhar um pouco mais a realidade eslovaca que à primeira vista nos tinha causado uma impressão desagradável. Fomos confirmando isso ao longo do percurso e achamos que a União Europeia vai ter de mandar umas verbas para um desenvolvimento mais harmonioso do "espaço europeu" de que todos fazemos parte, porque jeeps e carros de gama alta já vimos, mas telhados a cair e malta a vestir roupa do século passado também. E um outro pormenor que não é de somenos importância, o facto de na Eslováquia as pessoas andarem quase todas com um saco na mão, talvez à espera de um artigo a preço razoável, não sei... mas deu para perceber.
Uma vez que antecipamos a chegada a Budapeste em um dia, os dois de estadia alargaram-se a três, o tempo que achamos necessário para visitar uma cidade como budapeste, propondo até aos possíveis interessados um primeiro dia para andar com o mapa da cidade nas mãos, o segundo dia para realizar um city-tour e um terceiro dia para as compras, mas não se alarguem nem tenham ilusões que em Budapeste nem a água é mais barata, não consegui encontrar nada mais barato que em Portugal e um cafézinho daqueles que não têm nada a ver custou-me 600 forints, qualquer coisa como 2,4 €, o que me fez até sonhar com aquela bica no clube, a 0,60€...
A chegada à cidade, a despedida dos amigos e das bicicletas que tinham de fazer o retorno, a procura do hotel que com GPS até se faz de olhos fechados, um alojamento bom, bonito e barato, que nos dias de hoje até se encontra com um pouco de paciência num site de viagens e lá ficamos eu e o Carlos três dias a usufruir de um final de quinzena inesquecível, projectando novos locais, novas hipóteses para a primeira quinzena de Agosto de 2010 e com uma afirmação que afasta todas as dúvidas... "morra quem se negue!".

domingo, 19 de julho de 2009

PRECISA-SE

"Precisa-se m/f, 21/31 anos, passaporte europeu, trabalho em navios/cruzeiro luxo. Sem piercings nem tatuagens. Inglês médio... telf. 91..."
Encontrei este anúncio num jornal diário e lembrei-me das dádivas de sangue dos homossexuais do género masculino, não sei porquê, vá lá saber-se, eu acho que o cérebro deve funcionar como um copo que vai enchendo de (des)informação ou conhecimento efectivamente útil, positivo e enriquecedor, assim como de muitas gotas de imaginação, experiência, vivências várias e vícios uns melhores que outros, mas também prazeres que cada um desenvolve a seu gosto e ao gosto de quem gosta. Felizmente o cérebro deve estar munido de hormonas aborrachadas capazes de apagar o conhecimento temporário, tal qual como aqueles ficheiros de computador que apagamos quando, ao fim de seis meses, a máquina nos lembra que afinal gravamos aquilo mas nunca os utilizámos...
É mesmo, o cérebro humano tem têndência para esquecer as milhentas experiências porque passamos e que não nos interessaram por aí além, o que de alguma forma nos facilita a reciclagem e a posterior limpeza que se assemelha ao tal computador dos dias de hoje. Mas a que propósito vem o anúncio dos navios de cruzeiro e das dádivas de sangue dos homosexuais do género masculino? vou tentar esclarecer, mas acho que isto tem também a ver com aqueles ficheiros que nos aparecem no ecrã do computador, que apagamos e voltam à carga, qual flash que nos chama a atenção permanente para um tal anti-vírus que já acabou a validade, solicitando o pagamento da renovação através do cartão de crédito que também já não tem qualquer validade, nem saldo...
Pois acho que talvez tenha a ver com todos aqueles que acham que devem fazer o que querem na vida e depois aqui-del rei que a sociedade e tal, é que tem a culpa e os direitos são iguais para todos, reclamando a torto e a direito, com a ajuda da "quercus", dos "amigos dos animais", do "SOS racismo" e até "liga dos combatentes".
Ah, os malandros não querem aceitar a dávida de sangue dos homossexuais do género masculino, porque têm comportamentos de risco? malandros, que os rapazes têm tanto direito de dar sangue como os outros... mas será mesmo que a algazarra se instalou porque não querem mesmo a dádiva ou afinal as "dádivas" são pagas nessas clínicas ou hospitais privados que existem por aí e os homossexuais do género masculino ficam com menos uma fonte de rendimentos? E vc, sim vc, não precisa de olhar para o lado, que estou a falar consigo, no dia em que precisar de uma transfusão de sangue e lhe dissessem que é sangue de homossexual com comportamento de risco, como reagiria? quereria correr o risco de receber esse sangue, como os hemodialisados de Évora que receberam o sangue vindo da superdesenvolvida Suíça que, para não discriminar também recebia "dádivas" de homossexuais? você, que até manda os iogurtes para o lixo porque acabou a validade ontem, o que faria?
E que dizer de uns navios/cruzeiro de luxo que, donos de si próprios, dos seus gostos e dos desejos da maioria dos clientes que lhes pagam, anunciam que só aceitam jovens que não tenham percings, nem tatuagens? pois também essas "associações protectoras" vão gritar a dizer que "tá bué de mal"? que os jovens e tal, têm o direito e coisa e tal dos tatoos e dos percings e até de não se lavarem senão quando lhes apetece?
Pois, pode ser que as miúdas gostem, que nas discotecas tenham mais facilidade de entrar à sexta à noite, mas acredito que de nada lhes sirva usar esses adereços no dia em que quiserem trabalhar, se é que querem mesmo.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O ESTADO, PESSOA DE BEM...

O Estado, pessoa de bem! é verdade, o meu avô já falava de um Estado com maiúsculas, dizia ele que isso começou a dizer-se no tempo do Egas Moniz, quando este foi com a família e as cordas ao pescoço, pedir desculpa ao rei por alguma palavra dada e entretanto desmentida pelos factos, mas isso foi há tanto tempo que acredito que poucos se lembrem dele e até o confundam com o Martim Moniz, entalado nas portas de Lisboa, o Botelho Moniz que chegou a general de Salazar e até o quis entalar, ou até o Moniz Pereira que conseguiu fazer em Portugal recordistas mundiais e medalhados olímpico no atletismo e nunca se deixou entalar.
Mas já que falamos de entaladelas, lembrei-me agora de uma cena que se não fosse grave, daria para rir um bocadinho, que parece que faz bem ao fígado, isso digo eu, porque os cientistas ingleses confirmaram que umas palavras grosseiras aliviam a dor de cabeça... na verdade um asneiredo quando batemos com o martelo no dedo, não cura mas alivia.
Ah, a cena... pois um casal foi a uma festa e houve confusão... empurrões pra cá, murros pra lá, uma garrafa na cabeça de um, uns pontapés noutro, resultado final: dois feridos maltratados a caminho do hospital. GNR chamada, identificação dos agressores, garrafas para cima dos militares, ofensas verbais e outras coisas mais... ninguém detido para averiguações.
Entretanto no hospital:
- ena como a senhora vem... é só sangue!
- pois foi senhor doutor, fui agredida sem saber porquê e acabei com uma garrafa partida na cabeça que me deixou neste estado...
- e aquele senhor que está ali também a queixar-se, é seu marido?
- é sim... também as comeu...
- então mas ele agrediu-a?
- não, senhor doutor, ele também apanhou... fomos a uma festa...
- a senhora diga a verdade, está a parecer-me que ele é que a agrediu... olhe que se foi ele, já não sai daqui, é detido imediatamente por maus tratos, quer que chame a polícia para o deter?
- oh senhor doutor, fomos ambos agredidos numa festa por um grupo de malandros sem qualquer justificação...
- ah bom, senão ficava já detido e ia logo para tribunal, neste país é assim, não se brinca.
Entretanto no mesmo país, um dos agressores confessou a agressão ao guarda da GNR...
- pois fui sim, fui eu e se não fossem na ambulância ainda levavam mais, o que é que você quer?
e vá-se embora para o posto que isto ainda acaba mal...
Pois, aqui neste cantinho do país a GNR foi-se embora, ninguém foi detido nem identificado e a queixa foi feita...
- bom dia, quero apresentar queixa...
- sabe o nome da pessoa que o agrediu?
- não, mas sei a alcunha, que já consegui saber isso e sei onde mora... os senhores foram lá ao local e não conseguiram saber o nome?
- o senhor é que tem de saber o nome do agressor... para nós sabermos o nome, a isso já se chama investigação e é outro assunto.
Conclusão:
Em Portugal, bater na mulher é crime, bater na mulher dos outros não é!
Entretanto noutro ponto deste inimaginável país, uma senhora separa-se do marido e vai à sua vida, o gás da companhia está no nome dela e o ex-marido continua a gastar o gás durante seis meses. Em casa chegam facturas do gás em nome dela que o ex-marido rasga e não se pagam... relaxe, tribunal e penhora de bens, para simplificar a história.
Uma patrulha da GNR vai à nova morada da senhora para lhe penhorar os carros.
- então, pergunto eu que sou ignorante, se a senhora mudou de casa na mesma localidade e nem a companhia do gás, nem o tribunal, se importaram de a localizar antes do caso ir para tribunal, nem sequer desconfiaram que a senhora podia não ter conhecimento da situação, quando foi preciso penhorar os carros já deram com a nova morada?
Parei agora a crónica para dar umas valentes gargalhadas, desculpem...
Por último, outra história verídica:
jovem, 28 anos, licenciada entendeu que deveria fazer a sua empresa, em vez de ir para o "centro de (des)emprego" pedir a esmola de um subsídio. Sem subsídios durante toda a vida de estudante, sem subsídio para montar a empresa (os 5.000,00€ do capital social foram emprestados), sem receber a ponta de um chavelho do Estado, recebeu um questionário das finanças para preencher, atrasou-se, não respondeu quando devia e agora recebe um "auto de notícia" para pagar uma multa de 225,50€. Mas quem a mandou armar-se em parva e não ir para a porta de "segurança social" como fazem tantos milhares de coitadinhos? Esta valorosa e jovem empresária já ficou a saber o que é um Estado "pessoa de bem".